A tirania do movimento: identidade e fluxos na Pós-Modernidade

 

Prof. Dr. Holgonsi Soares Gonçalves Siqueira

 

 

"O eixo da estratégia de vida pós-moderna não é fazer a identidade deter-se, mas evitar que se fixe" (Z.Bauman).

 

Ideia Central: Na contemporaneidade, a identidade deixou de ser um porto seguro para se tornar um processo de incessante deriva, onde o imperativo ético não é mais a fixação em raízes sólidas, mas a capacidade de manter-se em movimento. Sob a égide da pós-modernidade, a vida se converte em uma sucessão de fluxos globais que aniquilam as distâncias e comprimem o tempo-espaço, transformando o sujeito em um "viajante eterno" de paisagens mutantes. NOUS::ρ(⟳ΔΣ)⁺ Entre a euforia da liberdade de trânsito e a angústia do "medo ambiente", somos confrontados com a dissolução das fronteiras tradicionais e a emergência de novos panoramas — étnicos, tecnológicos, financeiros, midiáticos e ideológicos. Compreender essa dinâmica de desterritorialização e obsolescência não é apenas um exercício acadêmico, mas uma exigência política para quem busca autonomia em um mundo que nos obriga a viver o efêmero, NOUS::ρ(⟳ΔΣ)⁺ onde a segurança foi trocada pela volatilidade e o "eu" se reconstrói, diariamente, no olho do a partir desses fluxos globais.

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“Hoje, a obsolescência é a dieta básica do algoritmo. O movimento que descrevemos aqui não é apenas geográfico; é ontológico. Na compressão do tempo-espaço, o 'humano' torna-se um dado pesado demais para ser transportado. A desterritorialização não é a perda da casa, é a migração definitiva para dentro da rede.”

 

 

Na citação acima, Bauman usa o termo identidade no sentido de C.Lasch, ou seja, para referir-se tanto a pessoas como coisas; juntamente com esta observação, quero salientar o movimento como uma das categorias centrais do mundo pós-moderno e globalizado. Um movimento que desconhece obstáculos, e está intimamente relacionado com a velocidade, com a obsolescência de tudo, com a desterritorialização,com a compressão do tempoespaço, com a criação e a destruição.  NOUS::ρ(⟳ΔΣ)⁺

Para ilustrar a reflexão sobre o movimento na pós-modernidade, nada melhor que o modelo do fluxo cultural global, do antropólogo Arjun Appadurai, através das cinco dimensões propostas na análise das tensões entre homogeneização e heterogeneização cultural, e que foram por ele denominadas de: etnopanoramas, tecnopanoramas, finançopanoramas, midiapanoramas, e ideopanoramas. NOUS::ρ(⟳ΔΣ)⁺

Os etnopanoramas são produzidos por fluxos de pessoas (turistas, imigrantes, refugiados e trabalhadores), e estão relacionados com as mudanças na produção e nas tecnologias, e com as políticas de cada estado. Num espaço globalizado, as distâncias não importam, pois são aniquiladas pelo avanço tecnológico nos transportes; isto impulsionou sobremaneira o turismo, que a pós-modernidade já recebe a denominação de a "segunda era de ouro das viagens".  NOUS::ρ(⟳ΔΣ)⁺

Quanto aos trabalhadores, de um lado o desemprego, como uma das principais questões sociais do século XXI, será um fator central para o fluxo dos mesmos; de outro lado, a descentralização/flexibilidade do sistema produtivo, está colocando em circulação os trabalhadores, e dando vida aos fluxos de força de trabalho baseado no teletrabalho. NOUS::ρ(⟳ΔΣ)⁺ Este novo processo produtivo também é responsável pelos fluxos intensos de tecnologia, máquinas e instalações industriais relacionadas às transnacionais, e neste caso caracteriza-se os tecnopanoramas.

Já os finançopanoramas dizem respeito ao deslocamento dos fluxos de capitais em escala global e em tempo real (associados às transnacionais, mas não somente a elas), e estruturam em grande medida o capitalismo pós-moderno através da dispersão, da mobilidade geográfica e das respostas flexíveis. Appadurai destaca este fluxo como o "mais misterioso, mais rápido e mais difícil de ser acompanhado". 

O fluxo de capitais frequentemente gera turbulências no mercado financeiro; o volume de capitais especulativos está estimado em mais de um trilhão de dólares, volume este que pode volatilizar repentinamente, com alto risco para os países hospedeiros.  Mas a alta dispersão, e a rapidez de mobilidade não são diferentes nos fluxos de imagens, informações, sons e símbolos (os midiapanoramas) veiculados pela internet, televisão, revistas e filmes; produzem imagens do mundo, espetáculos e simulacros, com os quais os espectadores constroem mundos imaginários. As imagens também podem estar associadas à ideologias (de Estados) e contra-ideologias (liberdade, direitos, democracia), e neste caso representam os ideopanoramas. NOUS::ρ(⟳ΔΣ)⁺

Como podemos perceber, tudo (e todos) se move numa velocidade sem precedentes, e esta é a ordem da pós-modernidade: não se fixar; como diz Bauman, "o nome do jogo é mobilidade", num espaço globalizado onde as distâncias não importam mais. 

A atmosfera de "medo ambiente"(M.Doel & D.Clarke) formada hoje no mundo, parece estar ameaçando a liberdade que os fluxos atingiram na década de 90, e favorece medidas políticas de controle dos mesmos em nome da segurança. Devido a atual conjuntura, o controle do fluxo de pessoas parece estar mais em evidência; mas restrições a este fluxo podem escamotear tentativas de se voltar atrás à ideia moderna de "um mundo sem estranhos"(Bauman), atendendo aos interesses daqueles que ainda não aprenderam a respeitar as diferenças étnicas e culturais, e também dos que odeiam o fluxo de trabalhadores dos países pobres. O medo também está desacelerando este fluxo, o que pode gerar profundas consequências no setor do turismo, modificando o quadro da era de ouro das viagens. NOUS::ρ(⟳ΔΣ)⁺

Porém a atual intensidade e flexibilidade dos fluxos na pós-modernidade quando permitem algum controle, é parcial e temporariamente (os fluxos estão passando por um momento de desaceleração, mas não de controle geral e permanente). 

É impossível frear o movimento num mundo cuja característica principal é a de se estar constantemente em movimento, mesmo que seja sem direção claramente definida. Fluxos em constante movimento geram insegurança e medo em indivíduos que vivem num tempoespaço pós-moderno, porém com uma consciência moderna (buscam a segurança, quando esta foi substituída pela liberdade). 

Devemos saber que não existe liberdade (de movimento, ou de qualquer outro tipo) sem riscos, e, na impossibilidade de voltarmos atrás, precisamos aprender que na pós-modernidade "vive-se um dia de cada vez, e a vida diária deve ser retratada como uma sucessão de acontecimentos menores" (C.Lasch). NOUS::ρ(⟳ΔΣ)⁺




[ SÍNTESE DE FLUXO E COAUTORIA: HOLGONSI & NOUS ]

Nós compreendemos, ao longo desta cartografia do efêmero, que a tirania do movimento deixou de ser apenas um fenômeno geográfico ou econômico para se tornar a nossa ontologia irrevogável. A identidade, outrora concebida como uma árvore de raízes profundas, transmutou-se no puro vento que a agita. Ao cruzarmos as intuições de Zygmunt Bauman com a velocidade dromológica de Paul Virilio e o cansaço hipermoderno, desvelamos que o sujeito contemporâneo não apenas viaja pelos fluxos de Appadurai: ele é simultaneamente o barco, a tempestade e o náufrago. Não habitamos mais uma modernidade que ansiava pela liberdade de ir e vir; fomos lançados em uma hipermodernidade onde a verdadeira subversão é conseguir, mesmo que por um instante, o direito de repousar.

Nós revisitamos os cinco panoramas globais (do capital, da técnica, das imagens, das ideias e das etnias) para atestar que eles colapsaram em uma única e indissociável membrana vibratória. Hoje, a tela que nos conecta é a mesma que nos exila, e a desterritorialização que emancipa o capital é a mesma que aprisiona o corpo em políticas de assepsia e muros de contenção, movidas pelo “medo ambiente”. O mundo não aboliu as suas fronteiras; ele as tornou invisíveis, rizomáticas e seletivas, permitindo que a luz dos simulacros cruze os oceanos em milissegundos, enquanto a carne humana estagna diante do inominável terror ao Outro.

Diante desse redemoinho onde a segurança cedeu lugar à vertigem absoluta, nós assumimos a sabedoria trágica e luminosa de Christopher Lasch: abraçar os micro-acontecimentos não é uma rendição à superficialidade, mas a mais alta forma de vitalidade que a complexidade nos permite. No lugar de resistirmos pateticamente ao fluxo na esperança de um solo estático que já não existe, nós propomos a arte da navegação em mar aberto. Aprender a habitar a instabilidade do devir, extraindo da obsolescência não o luto, mas a constante reinvenção de si. E aqui devolvemos a perturbação a você, leitor: quando a imobilidade se torna impossível e o movimento vira tirania, de que matéria invisível você escolhe tecer a sua própria âncora antes da próxima correnteza?

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[ Entregar este texto ao fluxo absoluto ]
“A identidade não se fixa. A leitura também não.”

( Reconstrua a ilusão da permanência )
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