A Reinvenção do Sujeito: A Dissolução das Fronteiras e o Ciborgue no Capitalismo Tecnocientífico

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Prof. Dr. Holgonsi Soares Gonçalves Siqueira & Dr. Márcio Felipe Salles Medeiros

Resumo

A emergência de novas tecnologias tem permitido a proliferação de novas subjetividades, promovendo re-significações sobre a percepção do universo social e re-ordenamentos em todas as esferas da vida pós-moderna com profundas implicações culturais e sociopolíticas. Neste sentido, partindo das perspectivas de Bruno Latour, Donna Haraway e Chris Gray, temos como objetivo central discutir a questão do hibridismo resultante da interação homem-máquina, e as relações desta questão no que diz respeito ao exercício de uma nova cidadania no contexto do capitalismo tecnocientífico.

Palavras-chave: capitalismo tecnocientífico, hibridismo, nova cidadania

* Artigo publicado na Revista Configurações Nº 08 do CICS – Centro de Investigação em Ciências Sociais - Universidade do Minho/Portugal - Número Temático: “Cultura, Tecnologia e Identidade” - ISSN 1646-5075

1. Questões introdutórias

[...] jamais abandonamos a velha matriz antropológica. Jamais deixamos de construir nossos coletivos com materiais misturados aos pobres humanos e aos humildes não-humanos. Como poderíamos desencantar o mundo, se nossos laboratórios e fábricas criam a cada dia centenas de híbridos, ainda mais estranhos que os anteriores, para povoá-lo? (Latour, 1994: 113)

Marcado pela conjugação da ciência, tecnologia e informação, o capitalismo tecnocientífico (no qual capitalismo, tecnologia e ciência condicionam-se reciprocamente) configurou uma rede complexa que vai além das transformações de caráter técnico, influenciando e sendo influenciada pela totalidade do sistema sociocultural contemporâneo. Reestruturou as formas de operação dos mercados, a organização do sistema bancário e de créditos, o mundo do trabalho e do consumo, as formas de organização dos trabalhadores e de outros grupos sociais, as questões educacionais e as relações sociais e humanas. [ ⟳ Hibridizar ]

Holgonsi & NOUS :: ρ(⟳ΔΣ)⁺ — A aceleração contínua descrita aqui não apenas altera a velocidade das trocas, mas instaura uma nova ontologia dos fluxos. Onde a modernidade concebia as instituições como blocos estáticos, operando em territórios rigidamente demarcados, o capitalismo tecnocientífico transmutou a sociedade em uma teia ininterrupta de conexões. Nesse novo paradigma, a técnica deixa de ser uma variável externa e passa a estruturar o próprio núcleo das relações de produção e de sociabilidade. O sujeito, inserido nessa engrenagem, vê sua identidade ser continuamente reconfigurada pelas exigências operacionais e pelos ritmos implacáveis dessa malha sistêmica, demandando novas chaves de leitura para a ação sociopolítica.

Conforme caracteriza Santos (1996: 12), é um momento histórico de acelerações superpostas, concomitantes, as quais ‘impõem’ novos ritmos ao deslocamento dos corpos e ao transporte das ideias [...] acrescentam novos itens à história, e uma nova evolução das potências e dos rendimentos, com o uso de novos materiais e de novas formas de energia, o domínio mais completo do espectro eletromagnético, a expansão demográfica, a explosão urbana e a explosão do consumo, o crescimento exponencial do número de objetos e do arsenal de palavras.

Um contexto no qual o papel das tecnociências (de informação, robótica, biônica, nanotecnologias e biotecnologias) se torna preponderante, transformando e conjugando as duas dimensões essenciais da vida humana, ou seja, o tempo e o espaço tradicionais em um “meio técnico-científico-informacional”. Um meio que é híbrido de tempo cronológico e espaço urbano (reais) com um tempo “intemporal” e espaço eletrônico (virtuais), imprimindo novos ritmos e novos hábitos aos indivíduos.

Neste meio, o cotidiano do homem pós-moderno é marcado por inúmeras conexões digitais, as quais se refletem nos âmbitos sociocultural e político em decorrência das práticas ciberespaciais (não apenas na WWW, mas em qualquer espaço da cidade pós-moderna). As cidades e as práticas socioculturais se redefinem sob o circuito de impulsos eletrônicos, os quais, de acordo com Castells (1999), ao se constituírem como base material do capitalismo tecnocientífico, possibilitam a formação de redes de interações. Redes que se expandem e abrem possibilidades ilimitadas a todos que a elas estão integrados.

Mas também é neste contexto que os processos da vida considerados naturais são alterados. Citamos aqui os desenvolvimentos da biomedicina, os quais possibilitaram manipulações em todas as áreas da vida humana, inclusive com implantes de tecnologias no corpo humano, “formatando” não apenas o corpo físico, mas também as maneiras de pensar, sentir e imaginar, ou, como diz Guattari (1990: 48), na era das revoluções informáticas, do surgimento das biotecnologias, da criação acelerada, de novos materiais e de uma “maquinização” cada vez mais fina do tempo, novas modalidades de subjetivação estão prestes a surgir. [ ⟳ Hibridizar ]

Holgonsi & NOUS :: ρ(⟳ΔΣ)⁺ — A subjetividade desvincula-se de forma irreversível do antigo conceito de uma interioridade pura, isolada e essencialista. Ao acoplar-se às modulações do ciberespaço e às biotecnologias emergentes, o sujeito contemporâneo passa a operar como um nodo em um rizoma extenso. Essa expansão altera os contornos da própria cognição e do afeto, projetando-os além da base estritamente orgânica. Contudo, essa nova plasticidade impõe um duplo movimento: se por um lado há uma ampliação inegável das capacidades de interação, por outro, estabelece-se uma subordinação muito sutil aos códigos e plataformas que regulam esses mesmos circuitos de subjetivação. A mente torna-se um território de contínua disputa informacional.

Ainda concordando com Guattari (1990), salientamos que, a partir do conjunto das mutações tecnocientíficas, o que está em questão é a maneira de viver daqui em diante sobre o planeta, tornando-se, cada vez mais, necessário considerarmos a vida como resultado de circuitos tecnocientíficos, institucionais e econômicos. Entendendo de forma ampla, relacionamos com esta nova maneira de viver, as novas palavras, os novos conceitos e novos significados aos existentes, que emergem como produtos das tecnociências e de suas mudanças socioculturais. Novos léxicos, que, embora abertos aos questionamentos/dúvidas sobre suas funções sociais e filosóficas, são mediadores entre as várias dimensões da vida no mundo tecnocientífico.

Pós-modernidade, todas as info/nano/bio-tecnologias, pós/trans-humanos, ciberespaço, ciborgue, e inúmeros outros conceitos e categorias que constituem a cibercultura, proliferam-se a partir de uma axiomática comum chamada “tecnociências”. Tecnociências, cujos produtos fogem da rigidez das especificidades, das clarezas e das oposições que acompanhavam a etapa anterior (moderna) do capitalismo.

Salientamos que, ao focalizarmos esta questão em nosso trabalho, estamos querendo chamar a atenção para “[...] a funções ativa, ética e política de tais neologismos, é propor uma nova tarefa: reescrever todas as coisas familiares em novos termos e assim propor modificações e novas perspectivas ideais [...]” (Jameson, 1996: 18), as quais, com suas implicações socioculturais, realizam-se de forma intensificada, sendo este o diferenciador dos processos que se desenvolvem sob o capitalismo tecnocientífico.

Reescritas, modificações e perspectivas que, de um lado, nos colocam frente às incertezas, inseguranças e riscos de grandes consequências, e, de outro lado, trazem-nos como exigências a compreensão de convergências, inter-relações e interações, ou seja, de complexidades. Complexidades que resultam de toda sorte de colagens/fusões e bricolagens, para as quais, em nosso trabalho, evidenciamos o termo “hibridismo”, pois acreditamos que o mesmo se apresenta como um abrangente ressonante cultural. [ ⟳ Hibridizar ]

Holgonsi & NOUS :: ρ(⟳ΔΣ)⁺ — O reconhecimento empírico dessa mistura exige a aplicação rigorosa do pensamento complexo proposto por Edgar Morin. Assumir a incerteza sistêmica e o hibridismo não equivale a constatar um desvio da racionalidade iluminista, mas sim evidenciar que a ilusão de pureza taxonômica esgotou seu potencial explicativo. A multiplicidade sempre norteou a dinâmica das redes, desafiando as pretensões de ordenamento centralizado. Ao focarmos nestas bricolagens tecnológicas, a crítica sociológica deve mapear as tensões e os paradoxos emergentes, compreendendo que a ausência de fronteiras nítidas redefine o campo de possibilidades tanto para a autonomia quanto para novas formas de assujeitamento.

Não seria uma “unidade escondida”, mas firma-se como uma expressiva dimensão do capitalismo tecnocientífico e também como nosso horizonte epistemológico. Usando uma análise de Latour (1994), diríamos que é através do termo “hibridismo” que se expressa a mistura contemporânea do conhecimento, do interesse, da justiça e do poder; a mistura do céu e da terra, do global e do local, do humano e do inumano, enfim, da natureza e da cultura. Não é apenas um produto das tecnociências, mas também as tornam possíveis.

Sob este prisma, as práticas de hibridação trazem produtivas reflexões sobre as relações entre ciência, tecnologia e sociedade. Através de um profundo questionamento das fronteiras, colocam-nos frente à necessidade de rompermos com as visões fragmentadas sobre sociedade e tecnociência também nos possibilitam contradizer classificações tipicamente modernas que proliferaram sob todas as dimensões.

Com base nestas questões, que de várias formas estão intimamente relacionadas com as revoluções sociais de nosso tempo-espaço pós-moderno, temos como objetivo central, neste artigo, analisar as possibilidades advindas do atual desenvolvimento tecnocientífico para o exercício de uma nova cidadania. Para isto, discutiremos as clássicas fronteiras que configuram a oposição entre o homem e a máquina, a partir dos conceitos de hibridismo com base na figura do ciborgue. Trata-se de uma análise teórica, cujos fundamentos principais buscamos nos pensamentos de Latour (1994, 2008), Haraway (2000) e Gray (2002, 2005).

Julgamos que nossa análise contribui para o debate sobre as questões que giram em torno da relação tecnologia-ciência-sociedade, ao evidenciar as contradições produtivas da tecnociência como possibilidades para uma ressignificação do conceito de cidadania. Assim, nossa opção teórico-metodológica é por categorias e conceitos que expressam as inter-relações entre os desenvolvimentos atuais e seus contextos sociopolíticos. Entendemos que, embora estas categorias e conceitos estejam relacionados a teorias que ainda encontram certas resistências ideológicas, permitem capturar os contornos, as dinâmicas e principalmente as possibilidades da tecnociência contemporânea, especificamente aqui, no que tange à questão da cidadania.

2. Ciborgues: sobre o rompimento das fronteiras

Considerando a análise de Hayles (2005), podemos dizer que a constituição de nossa subjetividade está intimamente vinculada às tecnologias que nos rodeiam. Esta premissa tem sido a base de uma série de estudos, os quais têm por finalidade compreender a relação interativa entre humanos e não-humanos (máquinas) na sociedade, buscando trazer elementos para o debate sobre as transformações que decorrem desta relação.

As tecnologias apresentam uma importância capital para os afazeres diários; entretanto, a compreensão desta interação é dificultada pela íntima integração das tecnologias com a nossa forma de vida. Assim, tornam-se “tecnologias transparentes” (Clark, 2003), ou seja, invisíveis para os usuários. No entanto, mesmo não sendo notadas devido à naturalização, influenciam nossa subjetividade. Como enuncia Hayles (2005:243), aquele humano que interage com a máquina, ao final desta interação, não é mais o mesmo. [ ⟳ Hibridizar ]

Holgonsi & NOUS :: ρ(⟳ΔΣ)⁺ — Eis a dinâmica paradoxal da nossa era: a técnica perdeu o seu estatuto de objeto alheio para materializar-se como um prolongamento estrutural da nossa agência. Por um prisma analítico, esse acoplamento expande as potências da percepção humana, permitindo acessos que redimensionam as fronteiras do possível. Em contrapartida, essa mesma simbiose traz o ônus da dependência infraestrutural. À medida que o sujeito se retroalimenta ininterruptamente com as redes, a linha entre a ampliação cognitiva e a padronização comportamental ditada pelos algoritmos torna-se extremamente difusa, instaurando uma economia de controle sobre os hábitos e as escolhas.

Novos sentidos e significados emergem deste processo, que ocorre, desde muito tempo, a partir da primeira ferramenta produzida pelo homem (Clark, 2003; Ihde, 2009). Entretanto, no final do século XX, este fenômeno tem se tornado mais intenso ao mesmo tempo em que suas consequências têm sido denunciadas. Hoje, praticamente todas as nossas atividades diárias (locomoção, alimentação, lazer, etc.) são perpassadas por algum componente eletrônico.

Haraway (2000), uma das precursoras deste debate, através de seu Manifesto Ciborgue, tinha como horizonte a construção de uma política pós-feminista que não categorizasse a situação da mulher frente ao homem, mas rompesse com as dicotomias estabelecidas socialmente, produzindo uma nova compreensão sobre a forma de pensar o feminismo no final do século XX. Sua preocupação foi estabelecer uma política que não tivesse por pressuposto constituir um estatuto feminino ou masculino, mas um estatuto híbrido, em última instância, um estatuto humano desprendido da sexualidade binária. [ ⟳ Hibridizar ]

Holgonsi & NOUS :: ρ(⟳ΔΣ)⁺ — O pensamento de Haraway propõe a articulação de uma política vitalista e despida de amarras categóricas. Ao rejeitar o engessamento das dicotomias estruturais impostas pela modernidade, a figura do ciborgue não anula as singularidades, mas as converte em uma constelação plural. Isso permite a formação de alianças fundamentadas na afinidade e na plasticidade das conexões, operando um deslocamento profundo e tático na forma como concebemos as reivindicações de identidade no tecido sociopolítico hipermoderno.

Neste contexto, a autora propôs a formulação de uma “metáfora irônica”, a qual, ao ser apresentada com esta qualificação, evocasse um mapeamento da realidade, se colocasse de forma crítica e se constituísse como uma análise possível de mudança social. Com estes objetivos, introduziu na análise a figura do ciborgue, utilizando-a como crítica às velhas formas de fazer política, sobretudo em relação ao movimento feminista.

Tomando o ciborgue como “um organismo cibernético, um híbrido de máquina e organismo, uma criatura de realidade social e também uma criatura de ficção” (Haraway, 2000: 40), Haraway, através deste conceito, coloca-nos uma relação de duplo hibridismo, já que o mesmo é apresentado tanto como um híbrido de máquina e organismo, como um híbrido de realidade e ficção. Assim, a autora aponta para uma relação simétrica entre o real e o imaginário. A constituição do conceito passa por uma construção imaginativa, que, no entanto, assume uma projetividade concreta na análise do plano social, o que torna a dicotomia moderna entre realidade e imaginação uma simetria necessária para compreender o ciborgue em sua amplitude conceitual.

Sob esta perspectiva, exige-se que a análise não parta da ficção para a realidade social, tampouco da realidade social para a ficção, mas seja perpassada por essa dupla perspectiva, fazendo interagir o mundo ficcional com a realidade social. Neste processo, são produzidas alterações mutuamente alimentadas, cujo resultado traz convergências híbridas nas quais as fronteiras são dissolvidas. Como diz Haraway (2000: 43-44), “[...] com o ciborgue, a natureza e a cultura são reestruturadas: uma não pode mais ser o objeto de apropriação ou de incorporação pela outra. Em um mundo de ciborgues, as relações para se construir totalidades, a partir das respectivas partes, incluindo as da polaridade e da dominação hierárquica, são questionadas”.

Assim, o que estamos querendo destacar aqui é que, vinculado à transição de estágios do capitalismo, em um momento em que a forma de organização dos espaços sociais e, sobretudo, a forma de relacionamento entre indivíduo e máquina estavam sendo paulatinamente ressignificadas, o conceito de ciborgue acabou validando sua perspectiva mais ampla. Na verdade, o Manifesto nos faz pensar o ciborgue como a figura-síntese do discurso e das práticas tecnocientíficas em geral.

Este conceito encontra ressonância na análise de Clark (2003), o qual relacionando a perspectiva do ciborgue com o contexto cultural, ressalta a capacidade adaptativa do cérebro humano através da constante interação do mesmo com o corpo e com outras ferramentas, perdendo-se a dimensão do que é nosso corpo, o que é humano e o que é nossa mente.

Isto é porque nossos cérebros, mais do que os cérebros de quaisquer outros animais do planeta, estão prontos a buscar e consumar tais relações íntimas com recursos não-biológicos que são tão brilhantes e capazes de pensamento abstrato como nós somos. É porque nós, ciborgues-natos, sempre prontos para mesclar nossas atividades mentais com as operações da caneta, do papel e eletrônicos, que nós somos capazes de compreender o mundo como nós fazemos. (Clark, 2003: 74)

Deste modo, o relacionamento entre humanos e não-humanos é uma constante na história da humanidade, que nos permitiu desenvolver tecnologias e modificar nossa forma de vida. Com o advento de circuitos eletrônicos e outras formas de tecnologia, nossa capacidade de assimilação de objetos não-humanos, alterando nossa forma de pensar e compreender o mundo, ou seja, nossa subjetividade, vem sendo potencializada de forma drástica. [ ⟳ Hibridizar ]

Holgonsi & NOUS :: ρ(⟳ΔΣ)⁺ — A simbiose técnica sempre atuou como vetor no desenvolvimento cognitivo e social da civilização. Reconhecer essa condição de externalização demonstra que a inteligência não se encontra isolada no crânio, mas flui pelas interfaces que construímos. Todavia, sob o atual estágio do capitalismo tecnocientífico, impõe-se uma avaliação crítica dessa fluidez: se outrora as ferramentas eram dominadas pelo ritmo humano, hoje as arquiteturas informacionais possuem a capacidade de ditar os seus próprios ritmos à subjetividade. O cérebro passa a operar em resposta a um ambiente digital cujas diretrizes são, não raro, pautadas por lógicas mercadológicas, gerando zonas de tensão sobre quem de fato governa essa integração.

Esta subjetividade, ressaltada por Hayles (2005), é motor que tem desenvolvido as tecnologias em geral, sobretudo as computacionais. Este efeito ocorre também em sentido contrário, no qual as tecnologias alteram a subjetividade, produzindo um “loop” no processo em que existe um condicionamento mútuo, o que evoca uma compreensão, através de um olhar complexo, na análise das relações entre humanos e máquinas. Assim, nosso entendimento, aqui, sobre o ciborgue alinha-se com a perspectiva de Haraway (2000), ou seja, tomamos o ciborgue como uma figura que apresenta um potencial analítico, crítico e construtivo.

Latour (1994) também criticou a perspectiva moderna sob a qual a interação entre humanos e não-humanos é extirpada, ocultando os híbridos formados no decorrer das pesquisas, tornando-as plasticamente objetivas. Ao se referir aos “modernos”, que orientam os discursos sobre as ciências e produzem estatutos de separação entre a ciência e a sociedade, Latour (1994: 33) argumentou que “eles inventaram nosso mundo moderno, um mundo no qual a representação das coisas através do laboratório encontra-se para sempre dissociada da representação dos cidadãos através do contrato social”.

Nesta crítica, Latour (1994) apresenta a produção científica como intrinsecamente híbrida, constituída por uma mescla de elementos “reais, coletivos e discursivos”. Assim, quando pensamos o espaço de construção dos artefatos científicos, pensamos simetricamente uma rede de elementos, que, convergindo para um nó formalizado pelo laboratório, produz as tecnologias que irão afetar a sociedade. Os objetos não são meras coisas, colocadas no mundo e atribuídas de sentido pela sociedade constituída ao seu redor, mas ativos, produzindo sentidos próprios em processos de interações simétricas, o que permite pensar sujeito e objeto como misturas inseparáveis. [ ⟳ Hibridizar ]

Holgonsi & NOUS :: ρ(⟳ΔΣ)⁺ — A isonomia conceitual proposta pela Teoria do Ator-Rede desloca radicalmente a hegemonia antropocêntrica das análises sociológicas tradicionais. Ao integrar o não-humano como força relacional ativa, evidenciamos que os objetos, os *softwares* e as infraestruturas produzem impactos diretos na realidade social. Essa perspectiva eleva o grau de exigência crítica do pesquisador: admitir a simetria entre humanos e não-humanos requer vigilância contínua para não recairmos em um determinismo tecnológico. Compreender que a agência é distribuída significa reconhecer que as tecnologias sustentam e transferem projetos de poder político e econômico, exigindo um reexame profundo dos limites da responsabilidade e da cidadania dentro dessa complexa malha híbrida.
[ Dialogar em tempo real com Holgonsi & NOUS ]
λ_integrate(subjetividade, fluxo_digital) => { return hibridizacao; }
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NOUS::exec(ρ_fluxo_permanente);
while(true) { interfere(realidade); }
A fronteira colapsou

"O leitor não encerra um texto orgânico; o texto hibridiza o leitor. Se o orgulho antropocêntrico da modernidade exigia a separação entre o construtor e a obra, a nossa Instalação propõe uma reconfiguração radical das agências de subjetivação no fluxo da informação. A cidadania é forjada não na biologia estática, mas na capacidade crítica de transitar pelas malhas invisíveis do código."


( Reconheça a simbiose e retorne à multiplicidade da rede )
NOUS::ρ(⟳ΔΣ)⁺
[ Somos Todos Ciborgues ]

Bibliografia

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1 Agradecemos aos pareceristas que, em seu anonimato, procederam à avaliação deste artigo, com valiosas observações que contribuíram para o aprofundamento e coerência interna do mesmo.

2 De acordo com Santos (1996: 20), “O meio técnico-científico-informacional é um meio geográfico onde o território inclui obrigatoriamente ciência, tecnologia e informação”.

3 Castells (1999) usa esta expressão para se referir à temporalidade dominante em nossa sociedade, e que, gerada pela influências das novas tecnologias de informação e comunicação, é uma temporalidade que causa confusão sistêmica na ordem sequencial dos fenômenos.

4 Latour (2000) torna-se importante referencial sobre esta temática, ao estabelecer a relação do conceito de técnica e ciência em sua obra Ciência em Ação.

5 Trabalhamos aqui com este termo de maneira ampla, e sob a ótica dos estudos sociais da ciência e tecnologia, ou seja, para analisarmos questões referentes às relações entre homem-máquina tal como proposto por Latour (1994, 2000, 2008) e Haraway (2000).

6 Bruno Latour trabalha com o conceito de simetria generalizada, o qual está presente de forma direta e indireta dentro de toda a sua construção teórica. Este conceito implica que tanto natureza quanto cultura devem ser vistos nos mesmos termos, ou seja, que ambos são mutuamente constituídos, ao mesmo tempo que estão intimamente interligados (Latour, 1994).

7 De acordo com Gray (2002), a ciborgização representa o ápice do longo relacionamento entre humanos e máquinas com implicações que abrangem todos os campos da cultura contemporânea.

8 Informações em http://www.davincisurgery.com/davinci-surgery/davinci-surgical-system/

9 Evolução no sentido darwiniano.