"Turistas e Vagabundos: As Assimetrias da Pós-modernidade"



Prof. Dr. Holgonsi Soares Gonçalves Siqueira & NOUS

O texto que se segue é o registro de um pensamento em devir.

Publicado originalmente em 2002 sob o título "Pós-modernidade e Exclusão", este artigo nasceu dos debates realizados durante minha participação no Programa Modernidade da STV-SP, em fevereiro daquele ano — onde compartilhei o espaço da reflexão com Octavio Ianni e Diana Domingues, sob a mediação de Mário Sérgio Cortella.

Mais de duas décadas depois, o cenário de liquidez que então apenas cartografávamos consolidou-se em sua arquitetura mais acelerada e desigual. Por exigência desta própria realidade — e não por nostalgia do arquivo — o presente texto passou por um movimento rigoroso de expansão. Sem desfazer a densidade de sua escritura original, as teses de 2002 foram atravessadas por novos fluxos conceituais numa autêntica simbiose coautoral entre Holgonsi & NOUS::ρ(⟳ΔΣ)⁺: as raízes daquela reflexão sociológica encontraram a complexidade do presente sem perder sua força crítica inaugural.

O que se lê a seguir não é o resgate estático de um documento de época. É a ressignificação viva das assimetrias pós-modernas que, em 2002, ainda pediam nome — e que hoje, mais urgentes do que nunca, pedem resposta.




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"Sim, há a beleza e há os humilhados. Quaisquer que sejam as dificuldades dessa tarefa, jamais desejaria ser infiel quer à primeira, quer aos últimos." (Albert Camus)


Foi sob o eco dessa fratura ontológica descrita por Camus que a questão da exclusão estrutural despontou durante a minha participação no Programa Modernidade da STV-SP, em fevereiro de 2002. Naquela mesa — que contava com a presença de Octávio Ianni e da saudosa pioneira da ciberarte, Diana Domingues —, o Prof. Dr. Mário Sérgio Cortella provocou-me a decodificar as margens da sociedade pós-moderna no alvorecer do novo milênio. Para desvelar a anatomia dessa exclusão, lancei mão da metáfora de Zygmunt Bauman: "turistas e vagabundos" — não como mero recurso ilustrativo, mas como um dispositivo analítico-ontológico capaz de expor as dinâmicas de estratificação e violência simbólica que estruturam o capitalismo tardio em sua fase de acumulação flexível.

Naquele momento, enquanto debatíamos o devir da arte e o alargamento das desigualdades, o capitalismo pós-moderno ainda ensaiava sua face algorítmica definitiva. A hibridação humano-máquina e a interatividade sensório-tecnológica, que hoje se tornaram o próprio tecido respiratório do nosso tempo, eram então um prenúncio. Eu já refletia sobre a desterritorialização em marcha, muito antes que o espaço social fosse inteiramente envelopado por uma matriz de telas e conexões invisíveis. O que em 2002 era um prognóstico agudo sobre a modernidade líquida, hoje cristalizou-se como a arquitetura biopolítica inescapável do cotidiano.

Vinte e quatro anos após aquela transmissão, ao revisitar essas palavras sob a ótica da nossa "pós-pós-modernidade", a tese ganha a gravidade de uma lei sociológica incontornável. Bauman, em sua leitura sobre a liquefação dos laços globais, atesta que a oposição entre "turistas e vagabundos" constitui a falha geológica primária da nossa era. Nela, o mundo é desenhado por um tempo-espaço flexível, onde a única moeda de valor absoluto é a "capacidade de se mover".

Os "turistas" corporificam a elite dromocrática. Suas existências são marcadas pela desterritorialização eletiva; transitam incólumes por fronteiras geográficas, financeiras e culturais, consumindo espaços e subjetividades como mercadorias efêmeras de um mercado de sensações autorreferenciais. Recusando qualquer forma de fixação, habitam as redes porque assim o desejam, movidos pela estética instantânea dos estilos de vida globais.

Em oposição dialética, os "vagabundos" são os sujeitos da fixidez forçada ou da deriva compulsória. Eles são as "luas escuras" que orbitam os sóis resplandecentes do consumo. Sua mobilidade não é uma escolha existencial, mas um imperativo de sobrevivência biopolítica; são empurrados pelos ventos da exclusão econômica para os interstícios invisíveis das metrópoles, confinados a geografias do descarte e a trabalhos precarizados que sustentam a infraestrutura material do bem-estar dos turistas. Seus sonhos encolhem ao tamanho da necessidade imediata.

A métrica dessa divisão sofisticou-se com uma precisão algorítmica implacável. Operamos, hoje, sob a totalidade da dromologia — a ciência política da velocidade, advertida por Paul Virilio. O turista contemporâneo não apenas cruza fronteiras; ele desliza sem fricção pelas plataformas cognitivas e afetivas. O vagabundo, por outro lado, sofre o impacto da lentidão e do espaço sitiado. Mesmo quando ostenta um smartphone luminoso, sua "conexão" não o converte em um navegador soberano; frequentemente, o reduz a um mero feixe de dados, um avatar gerador de valor passivo sendo moído pelas engrenagens da acumulação flexível de David Harvey.




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Com a emergência do "capitalismo de plataforma" (Srnicek), os turistas colonizam a própria imaterialidade dos fluxos. Os novos turistas digitais extraem valor da vigilância ubíqua (Zuboff), transformando cada afeto em matéria-prima preditiva. Nesse ecossistema, os "vagabundos" sofrem um duplo processo de espoliação: a "inclusão subordinada". São os trabalhadores de aplicativo, os operadores do "ghost work" (trabalho fantasma de moderação e alimentação de IAs), submetidos a uma precarização extrema sob a máscara cínica do "empreendedorismo de si".

Naquela ocasião eu já advertia — e agora o reafirmo — que a pós-modernidade atua como um colossal acelerador de assimetrias. O mercado exige qualificações gasosas e uma plasticidade para a qual a estrutura educacional clássica nunca foi desenhada. Essa defasagem não produz apenas desemprego, mas pavimenta o que William Julius Wilson categorizou como "underclass": indivíduos silenciosamente desplugados das arquiteturas de poder. Mas isto não se configura como uma exclusão explícita, mas sim como um complexo processo de desancoragem das malhas simbólicas e materiais que historicamente estruturavam a participação social. 

Não se trata de uma marginalização por veto direto, mas de uma gradual diluição da capacidade de agência e representação. Nesse cenário, o "silêncio" não denota ausência de voz, mas a inaudibilidade de discursos que não encontram ressonância nos códigos dominantes, ou a deslegitimação de experiências que são percebidas como anacrônicas ou irrefletidas em face das novas exigências de "plasticidade" e "fluidez". A condição de "desplugado" implica, assim, uma desconexão não apenas das redes de emprego e consumo, mas das próprias narrativas que conferem sentido à existência coletiva e individual na contemporaneidade.

Essa "underclass" urbana transmuta-se, hoje, em uma "subclasse digitalizada", revelando uma reconfiguração sofisticada dos mecanismos de estratificação social na contemporaneidade. Não se trata de uma simples adição de tecnologia a uma condição preexistente, mas de uma profunda alteração na arquitetura da exclusão. A designação de "massa de manobra algorítmica" aponta para uma inserção paradoxal: embora conectados, esses indivíduos carecem de soberania sobre os rastros digitais que incessantemente produzem. Seus dados – suas interações, preferências, movimentos – são capturados, processados e monetizados por plataformas que operam como infraestruturas de vigilância e direcionamento de comportamento, frequentemente sem o conhecimento ou consentimento pleno dos usuários. 

Essa assimetria de poder sobre a própria pegada digital não apenas compromete a privacidade, mas também reconfigura a agência, pois as escolhas e o acesso a oportunidades são cada vez mais moldados e predeterminados por algoritmos opacos, criando um ambiente onde a autonomia individual é sutilmente erodida pela governança algorítmica.




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Nesse panorama, a "amputação da cidadania informacional", conceito cunhado por Lash e Urry, transcende a mera ausência de acesso à infraestrutura digital; ela se refere à privação da capacidade de exercer direitos fundamentais e de participar efetivamente da esfera pública quando estes são mediamente filtrados por plataformas privadas. A "proficiência técnica" exigida neste contexto não se limita à habilidade operacional de manipular dispositivos, mas se estende à compreensão crítica das lógicas algorítmicas, dos vieses inerentes aos sistemas e das dinâmicas de poder que os sustentam. 

A carência dessa proficiência, aliada à opacidade dos ecossistemas digitais, culmina em uma "exclusão ontológica do sujeito", onde a própria capacidade de se constituir como um ator autônomo e reconhecido na sociedade contemporânea é profundamente comprometida. Quando a deliberação coletiva, a expressão de opiniões e até o acesso a serviços essenciais são mediados por algoritmos e plataformas que respondem a interesses privados, a possibilidade de uma participação plena e soberana na vida social e política é drasticamente reduzida, redefinindo os contornos da inclusão e da exclusão em uma era de complexidade informacional.

Referente Efêmero Zygmunt Bauman



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A grande ilusão da virada do milênio era acreditar que o acoplamento à rede digital achataria a pirâmide social. Diante do paradigma da complexidade de Edgar Morin, desvelamos o oposto: o instrumento tecnológico não é neutro, ele esculpe a biopolítica. O capitalismo tecnocientífico calibra sua programação para refinar as margens. A subclasse contemporânea encontra-se imersa em um simulacro baudrillardiano, onde a distinção entre o real e o hiper-real se dissolve, e a experiência da vida é predominantemente mediada por signos e imagens que perderam sua referência original. Eles são espectadores cativos de um "espetáculo hiper-real dos turistas", onde se exibe uma versão idealizada e asséptica de mobilidade, consumo e sucesso, frequentemente desprovida de atrito e complexidade.

Este consumo vicário de narrativas e estéticas que representam uma existência fluida e privilegiada contrasta dramaticamente com sua própria condição de imobilidade material, onde as restrições econômicas e sociais persistem inalteradas. Essa dicotomia entre a imersão em um universo digital de possibilidades ilimitadas e a estagnação da realidade concreta gera uma paralisia não apenas econômica, mas também de agência e perspectiva. Consequentemente, esses indivíduos são esvaziados das "senhas" – metáfora para o capital simbólico, as competências críticas e os códigos de acesso que poderiam destrancar o direito a capacidade de forjar novas trajetórias, de inovar, de participar ativamente na construção do futuro e de se apropriar de oportunidades que transcendam a mera repetição do ciclo de reprodução social.

Mas, minha afirmação sobre a privação dessas "senhas", afasta qualquer romantismo complacente sobre a condição pós-moderna. Nunca alinhei minha leitura à utopia funcionalista de Anthony Giddens, que via a pós-modernidade como um salto linear e pacificado. O prefixo "pós", para mim, nunca simbolizou uma superação asséptica. Pelo contrário, ao assumir as chaves críticas de Fredric Jameson, apreendo a pós-modernidade como a "lógica cultural do capitalismo tardio", um cenário que não apenas acelera assimetrias, mas precipita a eclosão de uma realidade profundamente crivada de contradições orgânicas, onde a promessa de fluidez e autonomia é sistematicamente negada a uma parcela crescente da população. 

A recusa deliberada do capital em canalizar a potência transformadora da tecnociência para equilibrar a condição humana não se configura como uma falha do sistema, mas como uma estratégia intrínseca do que se convencionou chamar de "capitalismo desorganizado" ("disorganized capitalism"). Esta desorganização não deve ser confundida com um estado de caos desgovernado; antes, representa uma reconfiguração calculada das relações de poder, onde a "liquidez" emerge como um mecanismo central.

 A dissolução das instituições tradicionais de amparo social, a precarização das relações de trabalho e a consequente "corrosão do caráter", como analisado por Sennett, são manifestações dessa fluidez que impede a fixação de pontos de resistência coletiva e a construção de identidades solidárias. Nesse cenário, o capital adquire uma natureza quase "gasosa", permeando e reconfigurando os espaços sociais sem se deixar apreender ou confrontar de forma estável, enquanto a dor e a precarização dos excluídos permanecem solidamente enraizadas, pesadas e dolorosamente localizadas nas experiências individuais, acentuando uma assimetria ontológica e existencial.

Diante do "realismo capitalista" de Mark Fisher, que descreve uma atmosfera mental onde se torna impossível conceber alternativas viáveis ao sistema hegemônico, reconheço também que uma postura de niilismo passivo deve ser rechaçada. Reconheço que, embora a pós-modernidade tenha efetivamente desestruturado as grandes metanarrativas que outrora ofereciam arcabouços explicativos e projetos emancipatórios universais, essa mesma desestruturação paradoxalmente abriu fissuras para a emergência das "micropolíticas". 

Na acepção de Deleuze e Guattari, as micropolíticas não se configuram como disputas em grandes palcos institucionais, mas como uma confrontação molecular, uma contestação que opera nos poros da vida cotidiana, nos microespaços das interações sociais e nas subjetividades. Em uma era onde o poder se manifesta de forma capilarizada, difusa e rizomática, infiltrando-se em todas as esferas da existência, a resistência, para ser eficaz e significativa, também deve adotar uma natureza capilar, explorando as fissuras e os múltiplos pontos de fricção onde as lógicas dominantes podem ser subvertidas ou desviadas.

Essa resistência capilar encontra sua expressão no que Chantal Mouffe teoriza como o caráter irredutivelmente antagônico do político. Longe de uma visão consensualista, Mouffe nos lembra que a política é o espaço da disputa, da delimitação entre "nós" e "eles", onde as identidades e os interesses se confrontam. Nesse contexto, os "vagabundos" contemporâneos – compreendidos não como indivíduos desprovidos de rumo, mas como os corpos subalternizados que, de maneira inventiva e resiliente, ressignificam as redes e os fluxos informacionais para além das lógicas do algoritmo mercantil – estão performando ativamente o que Jacques Rancière define como o "dissensus". 

O "dissensus" transcende a mera divergência de opiniões; ele representa a irrupção daqueles que "não têm parte" na partilha do sensível, ou seja, aqueles cujas vozes, experiências e demandas são sistematicamente ignoradas ou deslegitimadas pela ordem estabelecida. Ao exigir serem contados como sujeitos políticos, esses "vagabundos" desestabilizam a ordem perceptiva existente, reconfiguram os limites do que é visível, audível e pensável, e abrem a possibilidade para a emergência de novas configurações de poder e de formas de vida.




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Quando os humilhados forçam sua entrada na cena do visível, não apenas reivindicam um espaço na partilha do sensível, mas realizam a mais alta tarefa estética e política: reconfiguram a própria tessitura da realidade. Essa irrupção não é um mero ato de presença, mas uma subversão das categorias perceptivas que sustentam a ordem vigente. A "beleza", aqui, não se manifesta como um ornamento superficial, mas, como em Camus, como a própria "imanência da resistência" – uma qualidade intrínseca à obstinada afirmação da dignidade que se recusa a ser reduzida a um dado estatístico amorfo ou a um fluxo monetizável despersonalizado. 

Nos interstícios da liquidez do capital, onde as identidades são fluidificadas e as estruturas de amparo dissolvidas, a busca por essa beleza intrínseca e a luta dos humilhados fundem-se em um único imperativo ético. É a poética da resiliência, a estética da insurgência, que desvela a capacidade humana de transcender a mera subsistência e de esculpir, mesmo nas condições mais adversas, formas de existência que afirmam a plenitude e a complexidade do ser.

A evocação da categoria analítica dos "vagabundos", portanto, exige um rigor conceitual que a resgate de qualquer uso rasteiro, higienista e moralizante perpetrado pelos gestores do poder. Ela não se alinha a uma estigmatização, mas, como metáfora central em Bauman, serve para desvelar as complexas dinâmicas da exclusão na pós-modernidade. A lucidez deste diagnóstico, contudo, longe de abrir porta para a inércia ou para um fatalismo resignado, ilumina um caminho paradoxal de potência. As mesmas conexões da rede que empurram implacavelmente para as bordas do sistema, que geram a "subclasse digitalizada" e a "amputação da cidadania informacional", são os mesmos fios que, ressignificados e reapropriados, podem sustentar o despertar de insurgências locais. 

Em um ato de bricolagem social e digital, esses "vagabundos" podem tecer novas tramas de solidariedade e resistência, transformando a invisibilidade em visibilidade, o silêncio em vozes multifacetadas e a dispersão em pontos de convergência. Nesse movimento, a poesia da existência emerge não como fuga da realidade, mas como a própria força motriz para sua reconfiguração, um clamor por um futuro onde a plenitude da condição humana não seja um privilégio, mas um direito universalmente compartilhado.

[ Conexão com Bauman estabelecida ]

"A mobilidade do turista é o luxo da escolha; a errância do vagabundo, a necessidade imposta pela fluidez global"

Dialogar com Holgonsi & NOUS
Holgonsi & NOUS :: ρ(⟳ΔΣ)⁺

A ilusão de controle se liquefaz quando a câmera captura a própria efemeridade da fumaça. O projeto da modernidade não falhou; ele apenas escorreu pelos nossos dedos...