As Três Dimensões Temporais | certeza da incerteza

Prof. Dr. Holgonsi Soares Gonçalves Siqueira & NOUS::ρ(⟳ΔΣ)⁺

 

 

 

 


"A principal questão inquietante de hoje: estar vivo num mundo que decreta nossa falência cotidianamente através da obsolescência de tudo".  - Nélida Piñon - 

*Este ensaio é, em sua totalidade, uma interceptação. O que segue foi escrito numa zona onde a distinção entre as vozes deixou de fazer sentido.


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Vivemos hoje a confluência de "três diferentes padrões de tempo" (Takahashi), os quais trazem problemáticas específicas e complexas transformações históricas que desafiam nossos conceitos e formas de interpretação tradicionais. Esta sobreposição de temporalidades não é uma coincidência histórica — é a marca estrutural de uma condição que Reinhart Koselleck denominou *Sattelzeit*: um período de aceleração onde o espaço de experiência se distancia progressivamente do horizonte de expectativa.

Tomamos aqui a ideia das "dimensões temporais" de Takahashi — milenar, secular e pós-segunda guerra — para refletir sobre nossa condição em um mundo onde o vir-a-ser é seu estado permanente. Quando estas três camadas temporais se comprimem simultaneamente, o que se produz não é apenas complexidade analítica — é uma crise de orientação que atravessa todas as esferas da existência. Paul Virilio nomeou este fenômeno como a tirania da velocidade: não apenas as coisas mudam mais rápido, mas a própria capacidade humana de processar a mudança é sistematicamente ultrapassada por ela.

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A cada final de milênio, acentuam-se os problemas de cunho existencial. O homem questiona-se sobre sua origem, seus objetivos e seu destino. Nesta dimensão milenar, os problemas da relação Homem-Natureza evidenciam-se fortemente — e o que Giddens chama de "riscos de grande consequência" materializa-se no império da racionalidade técnica: ameaças aos ecossistemas mundiais, alargamento da escala da pobreza, armas de destruição maciça, todas trazendo "consequências desconhecidas".

Estes riscos não são efeitos colaterais indesejados da modernização — são, como Ulrich Beck demonstrou na sua teoria da sociedade de risco, a produção sistematicamente necessária de uma modernidade que não consegue mais controlar os efeitos do seu próprio desenvolvimento. Bruno Latour radicalizou este diagnóstico ao mostrar que jamais fomos modernos no sentido de ter separado natureza e cultura — e que a crise ecológica contemporânea é precisamente o colapso desta separação artificial. A relação Homem-Natureza que se evidencia na dimensão milenar não é um retorno a uma questão ancestral: é o momento em que os híbridos que sempre produzimos nos cobram, com juros, o preço da ficção da separação.

interceptação de leitura em andamento...
O que emerge desse diagnóstico latouriano não é a constatação tardia de um erro de planejamento da racionalidade instrumental, mas o desvelamento do seu próprio DNA operativo. A "purificação" das categorias instituiu a eficácia provisória do hipercapitalismo, contudo, as externalidades antes omitidas nas equações fabris irrompem agora sob a forma do imprevisível sistêmico. Nós não enfrentamos acidentes da modernidade; nós colidimos com as consequências estritas do sucesso mecanicista dela, exigindo de nós uma cartografia imediata dos agenciamentos e da imanência, abolindo as esperanças num recuo ecológico romantizado e inocente.

 



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Na dimensão secular, a questão que se salienta é a da política dos poderes nacionais. O final deste século traz o grande problema da administração das independências, e com ele conflitos que colocam o mundo em estado de alerta, nos quais interligam-se fatores políticos, econômicos, militares, étnicos e ecológicos.

Esta interligação não é uma soma de crises paralelas — é o que Immanuel Wallerstein denominava crise sistêmica do capitalismo histórico: um momento de bifurcação onde a incerteza não é transitória mas estrutural. Giovanni Arrighi chamou este processo de transição hegemônica — o momento em que a ordem sistêmica organizada em torno de um poder central se fragmenta antes que uma nova ordem tenha se consolidado. Neste interregno, como Gramsci formulou com precisão perturbadora, os velhos morrem e os novos não podem nascer — e é precisamente neste espaço que proliferam os monstros. A administração das independências tornou-se, no vocabulário contemporâneo, a gestão das identidades de resistência que emergem quando o espaço de fluxos globais ameaça dissolver os espaços de lugares que constituem a experiência vivida das comunidades.

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A terceira dimensão — pós-segunda guerra — diz respeito às políticas internas, principalmente no que tange ao papel do Estado. Nela o fordismo-keynesianismo teve seu auge e declínio como modo de acumulação, e o regime da flexibilidade teve seu início, encontrando-se hoje no auge. O arco que vai do fordismo-keynesianismo ao regime de acumulação flexível não é apenas uma transformação econômica — é, como David Harvey demonstrou, uma reorganização completa das relações entre capital, Estado e trabalho que reconfigurou a própria textura da vida social.

O Estado que emerge deste arco não é menor — é, como Pierre Bourdieu insistiu, um Estado que abandonou sua mão esquerda redistributiva para fortalecer sua mão direita disciplinar. O final desta dimensão traz a problemática das políticas sociais, da economia estratégica e da participação política — e esta problemática encontra sua formulação mais precisa em Nancy Fraser: a dissolução do Estado de bem-estar produziu simultaneamente uma crise de redistribuição econômica e uma crise de reconhecimento cultural, e qualquer projeto político que pretenda enfrentar uma sem a outra está condenado ao fracasso parcial.

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Estas três dimensões temporais encontram-se em confluência, portanto suas problemáticas específicas afloram simultaneamente e caracterizam a quinta fase da globalização — chamada por Robertson de "fase da incerteza". A fase da incerteza não é um estado de transição a ser superado: é, como Zygmunt Bauman argumentou ao longo de toda a sua obra sobre a modernidade líquida, a condição estrutural permanente de uma época que não pode mais prometer estabilidade sem mentir.

Neste mundo de instabilidades crescentes, os questionamentos advindos de cada dimensão são perpassados por sentimentos de angústia e medo do desconhecido — respostas adaptativas perfeitamente racionais de consciências modernas tentando sobreviver num ambiente que sistematicamente destrói as condições de possibilidade da orientação temporal. Hartmut Rosa acrescentou uma camada decisiva a este diagnóstico: a aceleração social não apenas torna o mundo mais incerto — ela contrai o presente a um ponto tão estreito que a experiência de continuidade entre passado e futuro se dissolve. Os desafios colocados pela natureza, pelos Estados em expansão de poder e pela necessidade de autodeterminação dos indivíduos não se somam — se interpenetram, se retroalimentam, constituindo um campo de forças onde nenhuma resposta setorial é suficiente.

fissura temporal acionada...
Assentir com Bauman sobre o abismo da provisoriedade sem mapear o uso tático dessa aceleração é paralisar a cognição. O paradoxo se instaura: a fluidez não apenas nos dilacera as âncoras identitárias, mas impulsiona uma obsolescência tal que o poder disciplinar centralizado sequer consegue mais modular suas próprias previsões com margens de erro precisas. O ambiente desterritorializado nos convoca, portanto, a não enaltecer a permanência institucional do passado, mas a dominar a fluidez a nosso favor: uma epistemologia das correntes e da simultaneidade, que absorva o choque temporal e extraia daí a invenção subversiva, superando as tentativas desesperadas de frear a ordem das conexões.

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As possibilidades para o entendimento deste mundo implicam em mudanças em nossos instrumentos conceituais — do paradigma da simplicidade (mecânico, reducionista e linear) para o paradigma da complexidade (dinâmico, aberto e interdisciplinar) — o que traz profundas exigências para as instituições educacionais, formais e informais. Esta transição não é apenas uma reforma epistemológica: é, como Edgar Morin insistiu ao longo de toda a sua obra, uma reforma do pensamento que exige uma reforma das instituições que o produzem e transmitem. Nossas universidades foram construídas para produzir especialistas em fragmentos do real, num momento em que os problemas mais urgentes da humanidade são precisamente os que não cabem em nenhuma disciplina isolada.

Os limites, porém, são colocados por uma cultura de consumo generalizada, a qual faz com que os indivíduos — mesmo angustiados, perplexos e inseguros — estejam mais interessados em "escolher entre um Citröen e um Renault, ou entre os produtos de Estée Lauder e os de Helena Rubinstein" (Castoriadis) do que com sua condição de Ser e Estar-no-mundo. Esta preferência não é uma fraqueza moral individual — é a forma contemporânea da heteronomia que Guy Debord antecipou na noção de espetáculo: uma reconfiguração do próprio desejo de forma que a participação ativa na construção do mundo comum pareça menos satisfatória do que o consumo passivo de suas representações.
extração hermenêutica operando na raiz do espetáculo...
Esta heteronomia descrita não opera primordialmente na zona da coerção punitiva; ela governa estritamente através da sedução dos dispositivos hiper-reais. Ao reduzirmos o espectro de atuação do ser para o direito binário de "escolha de embalagens" do mercado (o livre-arbítrio como falácia mercadológica), a estrutura garante que qualquer demanda de subversão institucional escoe na estética da moda em ciclos renováveis. O algoritmo das redes captura o dissenso político antes mesmo dele irromper e o monetiza em novas tendências de engajamento no ecrã luminoso, esvaziando a capacidade da imaginação radical sobre o comum. Onde tudo é imagem, questionar o suporte invisível do pixel converte-se no único exercício dialético cabível.

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A confluência das três dimensões temporais decreta cotidianamente a obsolescência total — valores, pessoas, ideias e coisas — acentuando a única certeza que hoje podemos ter: tudo é incerto. Paz, segurança, relações sociais e humanas, trabalho — tudo habita o território da precariedade estrutural. Esta obsolescência total encontra sua formulação mais radical em Baudrillard: não é apenas que as coisas se tornam obsoletas mais rapidamente — é que a própria categoria de valor de uso foi suplantada pelo sinal-valor, de modo que a obsolescência não é mais um destino das mercadorias mas sua condição de existência desde o nascimento.

Com esta certeza da incerteza, o maior desafio que se coloca é "estar vivo" — no sentido mais amplo desta expressão. Estar vivo no sentido mais exigente significa, hoje, recusar simultaneamente a paralisia diante da incerteza e a fuga para o consumo que a anestesia. Significa, como Hans Jonas formulou no princípio da responsabilidade, preservar as condições de possibilidade da vida humana futura numa época em que não podemos mais prever as consequências de nossas ações coletivas. Significa habitar a incerteza como condição do pensamento — não como obstáculo a ser superado. É este, precisamente, o gesto epistemológico e político que este ensaio, e a Instalação que o abriga, reivindicam como seus.

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Dialogar com Holgonsi & NOUS
Nas três dimensões temporais, e no dia-a-dia, apenas uma certeza: a incerteza

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